Na esfera da saúde pública global, um avanço farmacêutico redefine a prevenção de epidemias com um medicamento semestral que previne 100% das infecções por HIV em ensaios clínicos rigorosos. Desenvolvido pela Gilead Sciences e anunciado com aprovações regulatórias em novembro de 2025, o lenacapavir – comercializado como Yeztugo – é um inibidor do capsídeo do HIV injetável a cada seis meses, demonstrando eficácia absoluta no estudo PURPOSE 1, onde zero infecções ocorreram entre 2.134 mulheres cisgênero em regiões de alta prevalência na África Subsaariana, superando o Truvada diário e reduzindo o risco em 96% comparado à incidência de fundo. No PURPOSE 2, envolvendo 3.273 participantes de gêneros diversos, incluindo homens gays e transgêneros, a eficácia atingiu 99,9%, com adesão de 92% ao longo de um ano – um salto crucial em contextos onde pílulas diárias falham devido a estigma social, esquecimento ou barreiras logísticas. Pela primeira vez em trials pivôs de PrEP (profilaxia pré-exposição), o Yeztugo incluiu grávidas, lactantes e adolescentes, expandindo sua aplicabilidade, e foi bem tolerado, sem novas preocupações de segurança emergentes. Para os 39 milhões de pessoas vivendo com HIV globalmente, com 1,3 milhão de novas infecções anuais concentradas em regiões subdesenvolvidas, essa injeção bianual representa um game-changer, integrando-se perfeitamente à rotina diária e combatendo desigualdades em acesso à saúde. Aprovado pela FDA em outubro de 2025 e pela EMA logo após, o Yeztugo beneficia de parcerias como com o Global Fund e a PEPFAR para distribuir dois milhões de doses sem royalties em países de baixa renda. No entanto, o elemento provocativo é o custo inicial elevado, estimado em US$ 40 mil por ano nos Estados Unidos, que pode perpetuar injustiças, deixando comunidades vulneráveis à margem apesar de evidências de custo-efetividade em longo prazo. Como enfatizado pela Dra. Linda-Gail Bekker, da Universidade de Cape Town, “esse é o instrumento definitivo para encerrar a epidemia de HIV”, mas nos confronta com uma realidade dura: a prevenção perfeita existe tecnologicamente, mas por que ainda falhamos em garantir equidade global, permitindo que estigmas e barreiras econômicas perpetuem o ciclo de infecções?
